A relação íntima de Levinas com a fenomenologia de Husserl forneceu a base para uma consideração detalhada da "determinação" da existência, como incorporada, por exemplo, na forma pessoal (em inglês) do verbo to be: "there is", ou seu equivalente francês, il y a, ou ainda (em alemão) es gibt. Levinas dá a essa mais cotidiana da expressões cotidianas uma poderosa virada, vinculando-a ao horror: "There is" é impessoal e determinado;não é exterior nem interior; é, diz Levinas, "o puro fato de ser", "There is" - o determinado (cf. es gibt) do Ser - é o equivalente da noite, da ambigüidade, da indeterminação. "There is" vem ao pensamento, confronta-o antes que a revelação ou o conceito o ordene de qualquer maneira; desliza pela transcendência e chega a desafiar o ego e todas as formas pessoais do simbólico. Como tal, Levinas argumenta, "O roçar do there is... é horror". E o autor continua, observando o modo pelo qual o "there is" se insinua na noite, como uma ameaça indeterminada do espaço propriamente dito desengajada de sua função como um receptáculo de objetos, como um meio de acesso aos seres. Embora Levinas recusasse a mais vaga pista de uma explicação psicanalítica, é como se o "there is" como horror fosse um trauma para a consciência e uma impossibilidade para processos simbólicos. Entretanto, também deveríamos nos lembrar de que o horror aqui é sempre já determinado: é portanto, inevitável, como o ser é inevitável. Não deve, então, ser compreendido como equivalente à ansiedade heideggeriana antes do conhecimento do nada: "Estar consciente é ser arrancado do there is." Isso ocorre porque a consciência precisa formar-se em uma subjetividade construída por uma certa estrutura de racionalidade. Levinas está interessado no lado obscuro dessa racionalidade, que não é simplesmente o irracional ou o vácuo indizível, mas uma força positiva que não pode ser excluída. Colocando de outra forma: a subjetividade se forma segundo os princípios universais da filosofia ocidental; o "there is", por comparação, é contingência - o particular que esconde o universal. O "espectro assustador", como visto em Macbeth, de Shakespeare, é o Ser como o "there is", e é isso precisamente o que aterroriza Macbeth. Noite, crime, espectro e horror aqui se juntam para dar a sombra do ser.
Lechte, John, "50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002
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sexta-feira, 25 de junho de 2010
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Pós-estruturalismo: Michel Foucault
Inspirado por Bachelard, Canguilhem e Cavaillès, Focault reconhece que, se a história é sempre genealogia e uma intervenção, estruturas de conhecimento e modos de compreensão estão eles próprios sempre mudando. A epistemologia estuda essas alterações como a "gramática da produção" do conhecimento e é revelada pela prática da ciência, da filosofia, da arte e da literatura. A epistemologia é também um modo de vincular eventos materiais ao pensamento ou idéias. O fato de que uma prática particular incorpore uma idéia não é evidente por si mesmo; a conexão tem de ser evidenciada na prática da epistemologia.
Lechte, John, "50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002
Lechte, John, "50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Pós-estruturalismo: Jacques Derrida
Por meio da abordagem chamada "desconstrução" , Derrida iniciou uma investigação fundamental sobre a natureza da tradução metafísica ocidental e sua base na lei da identidade. Superficialmente, os resultados dessa investigação parecem revelar uma tradição cheia de paradoxos e aporias lógicas.
(...)
O processo de "desconstrução" que investiga os fundamentos do pensamento ocidental não o faz na esperança de que ele seja capaz de remover esses paradoxos ou essas contradições; nem afirma ser capaz de fugir à exigências dessa tradição e estabelecer um sistema por conta própria. Ao contrário, ele reconhece que é forçado a utilizar os próprios conceitos que considera insustentáveis em termos das reivindicações que lhe são feitas. Resumindo, ele também deve (pelo menos provisoriamente) sustentar essas reivindicações.
Lechte, John, "50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002
(...)
O processo de "desconstrução" que investiga os fundamentos do pensamento ocidental não o faz na esperança de que ele seja capaz de remover esses paradoxos ou essas contradições; nem afirma ser capaz de fugir à exigências dessa tradição e estabelecer um sistema por conta própria. Ao contrário, ele reconhece que é forçado a utilizar os próprios conceitos que considera insustentáveis em termos das reivindicações que lhe são feitas. Resumindo, ele também deve (pelo menos provisoriamente) sustentar essas reivindicações.
Lechte, John, "50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002
terça-feira, 22 de junho de 2010
Pós-estruturalismo: Gilles Deleuze
Falando de maneira abrangente, o argumento de Difference and Repetition repousa na visão de que, na era contemporânea o jogo de diferença e repetição suplanta o do Mesmo e representação. Diferença e repetição são, com efeito, índices de um movimento na direção de um pensamento não-representacional e radicalmente horizontal; e Deleuze é o praticante supremo desse pensamento. Sua leitura de Nietzche fornece um caminho para o labirinto da horizontalidade.
Lechte, John, "50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002
Lechte, John, "50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Pós-estruturalismo: George Bataille
As preocupações de Bataille em mostrar como as produções intelectuais muitas vezes ocultavam um elemento de base inassimilável levou-o a etnografias de sociedades cujo laço social parecia ser fundado em práticas bastante horríveis para uma sensibilidade ocidental moderna. Assim, em The Accursed Share, o teórico do dispêndio como excesso argumenta que a magnificência dos artefatos culturais astecas precisa ser compreendida em conjunção com a prática do sacrifício humano, o belo tem de ser ligado ao básico. As guerras forneciam as vítimas para o ritual sangrento, em que o sacerdote enfiava uma faca de obsidiana no peito da vítima e retirava o coração ainda pulsando, que então oferecia ao Sol, deus supremo dos astecas. Mesmo sem perder o sacrifício asteca, Bataille mostra que ele se adapta a uma certa lógica. Em primeiro lugar, o sacrifício humano é um modo de introdução do desequilíbrio em uma sociedade dominada por valores de trocas utilitários. A degradação das relações utilitárias está incorporada à escravidão, em que o escravo não é nada além de um objeto a ser usado pelas pessoas livres. A vitima do sacrifício asteca, por contraste, era muitas vezes matada humanamente e chegava até a receber tratamento especial, porque havia um elo íntimo entre a vítima e o captor. A vítima morre no lugar do executor. Ela é a sua vivência da morte, uma experiência manifestada através de angústia devia à identificação dos executores com o sofrimento da vítima. O sacrifício "restaura o mundo sagrado, aquilo que o uso servil havia degradado, tornado profano". O sagrado, então, está além do valor de troca, ele não tem equivalente: nada, conseqüentemente, pode ser substituto do ato sacrificial. Em uma sociedade na qual o valor de troca assumiu quase que por completo o controle, o sacrifício não pode ser compreendido. Contudo, ele ainda encontra eco na mutilação corporal (como a de Van Gogh), em que o ato provoca uma ruptura da homogeneidade do self e introduz a heterogeneidade da vida social.
Lechte, John, "50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002
Lechte, John, "50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002
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