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sábado, 19 de junho de 2010

Estruturalismo: Michel Serres

Serres é ostensivamente um filósofo da ciência. Mas ao contrário até mesmo de seu mentor, Gaston Bachelard, ele jamais aceitou que qualquer ciência em especial - quanto mais a ciência natural - se conformasse à determinação positivista de um campo hermético e homogêneo de investigação. Em uma obra recente, Serres indicou que a forma e a natureza do conhecimento os aproximam mais da figura do arlequim: uma figura composta que sempre tem outra roupa sob a que foi removida. O arlequim é uma figura híbrida, hermafrodita, mestiça, uma mistura de diversos elementos, um desafia à homogeneidade, assim como o acaso da termodinâmica abre o sistema de energia e o impede de implodir.


Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Estruturalismo:Christian Metz

De qualquer modo, Metz escolheu embasar sua construção mais rigorosa de uma sintaxe de cinema sobre o eixo sintagmático do significado. Essa construção que ele denomina la grande syntagmatique (a grande cadeia sintagmática, será por nós agora rapidamente resumida. A grande cadeia sintagmática é dividida em oito segmentos autônomos. Eles são:


1. Plano autônomo: não é um sintagma, mas um tipo sintagmático. É equivalente à exposição em isolamento de um único episódio da intriga. Inserções - por exemplo, uma "inserção não-diagética" (imagem fora da ação da história) - também podem ser equivalentes a um plano autônomo.


2. Sintagma paralelo: corresponde ao que é freqüentemente chamado de "seqüência de montagem paralela". Aqui, nenhuma relação precisa entre sintagma é evidente. Esse é um sintagma acronológico.


3. Sintagma acolado: sintagma de evocações. Por exemplo, Metz aponta para a forma como o erotismo é evocado em Une femme mariée, de Godard, mediante referências ao "significado global" do "amor moderno". Esse sintagma também é acronológico.


4. Sintagma descritivo: aqui a relação entre todos os elementos apresentados sucessivamente é de simultaneidade. Por exemplo, uma face, depois a pessoa a quem ela pertence, depois a sala ou escritório onde a pessoa esteja (Metz dá o exemplo de uma vista do campo, pedaço a pedaço). Um sintagma descritivo é cronológico.


5. Sintagma alternante: corresponde à "montagem alternativa", à "montagem paralela",etc. Por meio da alternância, a montagem apresenta diversas séries de eventos que são então compreendidos como de ocorrência simultânea.


6. Cena: a cena propriamente dita é equivalente ao fluxo contínuo de imagens em qualquer hiato diagético - uma das mais antigas construções cinemáticas. 


7. Seqüência por episódio: a descontinuidade torna-se um princípio de construção. Um sintagma linear produz uma descontinuidade de fato. Metz chama isso de "a seqüência propriamente dita".


8 Seqüência comum: disposição de elipes em ordem dispersa exemplificada por momentos saltados considerados sem interesse . O ponto sobre qualquer seqüência é que ela é removida das "condições reais de percepção".




Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Estruturalismo: Claude Lévi-Strauss

Falando de forma geral, as apostas da obra de Lévi-Strauss são altas. Elas constituem uma demonstração de que, quando todos os dados estão à mão, não há base sobre a qual se possa traçar uma hierarquia de sociedades - seja em termos de progresso científico ou de evolução cultural. Na verdade, toda sociedade ou cultura exibe característica que estão presentes em maior ou menor grau em outras sociedades ou em outras culturas. Lévi-Strauss argumenta assim porque está convencido de que a dimensão cultural (na qual a linguagem é predominante), e não a natureza - ou o "natural" - é constituinte do humano. Estruturas simbólicas de parentesco, linguagem e troca de bens compõem a chave para a compreensão da vida social, não da biologia. De fato, sistemas de parentesco mantêm a natureza em xeque, eles são um fenômeno cultural baseado na proibição do incesto e, como tal, não são um fenômeno natural. Eles viabilizam a passagem da natureza para a cultura, ou seja, para a esfera do verdadeiramente humano. 


Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Estruturalismo: Jacques Lacan

Embora a linguagem, como a parte privilegiada da ordem Simbólica, seja central para a teoria psicanalítica de Lacan, ela não é mais que um elemento em uma trilogia de ordens constituintes do sujeito em psicanálise. As outras ordens na trilogia são o Imaginário e o Real. Embora o inconsciente descentraliza o sujeito porque ele introduz a divisão, no nível do imaginário (ou seja, no discurso da vida cotidiana), os efeitos do inconsciente não são reconhecidos. No nível do Imaginário, o sujeito acredita na transparência do Simbolismo, ele não reconhece a falta de realidade no Simbólico. O Imaginário não é, então, simplesmente o espaço em que imagens são produzidas ou o sujeito se imiscui nos prazeres da imaginação. Na verdade, é no Imaginário que o sujeito reconhece equivocadamente (méconnaît)a natureza do simbólico. O Imaginário é, pois o reino da ilusão, mas de uma "ilusão necessária", como registrou Durkheim a respeito da religião.

Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002

terça-feira, 15 de junho de 2010

Estruturalismo: Roman Jakobson

Assim que para Jakobson, assim que paras muitos outros, a poética tende ao lado metafórico da aventura linguística, foi o padrão sonoro da poesia - e não o papel da metáfora como tal - inicialmente ilustrado nas diferenças entre os padrões sonoros da poesia tcheca e russa, que primeiro estimulou as pesquisas de Jakobson na área. Na verdade, a diferença entre as poesias tcheca e russa, ele descobriu, estava no ritmo. Foi a partir do estudo do ritmo poético que a "fonologia" de Jakobson se desenvolveu. Em particular, concentrando-se nos vínculos entre som e significado, Jakobson concluiu que som e sentido eram mediados pela diferença - que ele veio a chamar de "característica distintiva". Ou, melhor, como, na visão de Jakobson, a linguagem é basicamente um sistema de significados, a fala não é composta de sons, mas de fonemas, "um conjunto de propriedades sonoras concomitantes que são utilizadas em uma linguagem determinada para distinguir palavras de sentidos diferentes". 


Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Estruturalismo: Gérard Genette

A obra de Gérard Genette é de particular importância para teóricos literários e semiólogos. A preocupação constante na obra substancial de Genette, que abrange o espectro literário desde os clássicos gregos a Proust, é produzir uma teoria geral - baseada em esquemas classificatórios - da singularidade do objeto literário. Ansioso por evitar um procedimento procustiano de impor a obras literárias categorias externas, mas recusando a ingenuidade do empirismo da crítica literária, Genette empenhou-se - mediante um "método qualitativo" flexível - em produzir conhecimento a respeito do "mistério" da obra literária sem com isso destruir esse mistério. Inspirado por insights estruturalistas que levaram a análise textual formal a novos níveis nos anos 60, Genette tomou o cuidado de argumentar pela autonomia do objeto literário. Assim, afirma no final, a maior obra de Proust, Em Busca do Tempo Perdido, tomada como um todo, é irredutível: "Nada ilustra senão ela mesma".


Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002

domingo, 13 de junho de 2010

Estruturalismo: Georges Dumézil

Para Dumézil, "estrutura" e "sistema" são intercambiáveis: estrutura diz em latim o que sistema diz em grego. Juntamente como o método comparativo de Dumézil, a estrutura torna-se a chave do esforço duméxiliano em demonstrar que cada religião, cultura ou sociedade é um equilíbrio. A composição de elementos intrinsicamente significativos não acontece por acaso para forma uma espécie de todo (possivelmente) imperfeito. Antes, o todo é sempre já constituído pelas relações entre os elementos propriamente ditos - o sentido do todo sendo dado pelo fato dessas relações. Assim Dumézil está claramente do lado do movimento estruturalista do pensamento. Contudo, em oposição à busca de Lévi-Strauss pelos universais nos assuntos humanos, Dumézil esclareceu que estava muito ligado ao particular, aos "fatos", como freqüentemente os chamava. Deixar o reino dos fatos é "fazer poesia", penetrar um mundo de sonhos,  afirmava Dumézil. Devido a sua ênfase nos fatos, no particular, Dumézil não via como era possível retirar de sua obra qualquer espécie de sistema filosófico de base ampla, semelhante ao de Lévi-Strauss. Além disso, resistiu conscientemente durante toda a sua vida a todos os esforços de encaixá-lo em alguma "escola" de pensamento, desejando - e com muita intensidade - ser sua própria pessoa em questões intelectuais ou acadêmicas. Se membro de uma escola, acreditava ele, era perder a autonomia, essencial ao estudo verdadeiramente original e rigoroso.


Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002

sábado, 12 de junho de 2010

Estruturalismo: Noam Chomsky

Por fim, o racionalismo de Chomsky parece ser uma reação muito exagerada ao behaviorismo e empirismo característicos do ambiente filosófico e lingüístico anglo-americano em que Chomsky foi treinado. Como resultado, ele é com freqüência considerado o racionalista armado até os dentes tentando dolorosamente abrir algum caminho contra as forças do empirismo. Contudo, os importantes debates teóricos sobre linguagem e filosofia evidentemente não estão hoje limitados ao que a rivalidade entre racionalismo e empirismo provocou. O fato de que os escritos teóricos de Chomsky não pareçam ter registrado isso é uma séria limitação.


Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Estruturalismo: Pierre Bourdieu

Em grande parte, a postura teórica subjacente de Bourdieu foi apresentada em seu ensaio de 1970, An Outline of a Theory of Practice. Ali, no contexto de estudos etnográficos, Bourdieu delineia uma estrutura de três segmentos de conhecimento teórico, cujo nível mais reflexivo acabará sendo empregado para classificar "os classificadores", para "objetivar o sujeito objetivante" e para julgar os próprios árbitros de gosto. O primeiro elemento dessa estrutura é a "experiência primária" ou que Bourdieu também denomina nível "fenomenológico". Esse nível é conhecido de todos os pesquisadores em campo porque é a fonte de seus dados descritivos básico a respeito do mundo familiar cotidiano - seja de sua própria sociedade ou de outra. o segundo nível, quase tão familiar quanto o anterior, é o do "modelo" ou do conhecimento "objetivista". Aqui o conhecimento "constrói as relações objetivas" (por exemplo, econômicas ou lingüísticas) "que estruturam a prática e as representações da prática". Assim, em um nível "primário", o pesquisador poderia observar que em cada casamento, nascimento ou Natal as pessoas trocam presentes. Em um nível objetivista, o pesquisador poderia teorizar a respeito de que, apesar do que sugere o senso comum, a troca de presentes é um meio de manter o prestígio e confirmar uma hierarquia social e talvez também um exemplo da maneira como a troca enquanto tal é um modo de coesão social.O ponto que Bourdieu enfatiza a respeito desse conhecimento é que ele é fundamentalmente o conhecimento do observador neutro e distanciado que se dedica a desenvolver uma teoria da prática implícita nos dados primários.




Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Estruturalismo: Emile Benveniste

Um elemento fundamental da teoria de Benveniste a respeito da linguagem enquanto discurso é sua teoria dos pronomes, em particular, a teoria da polaridade eu/você. Gramaticalmente, essa polaridade constitui os pronomes de primeira e segunda pessoa: a terceira é uma "não pessoa", status revelado pela voz neutra da narrativa ou descrição - a voz da denotação. Kristeva verá essa polaridade como a chave para compreender a dinâmica da relação sujeito/objeto (eu = sujeito, você = objeto) na linguagem. O resultado é que, hoje, a polaridade eu/você tem sentido unicamente em relação à instância presente no discurso. Como nosso autor explica ao discutir a "realidade" à qual eu ou você se refere: "Eu significa ´a pessoa que está pronunciando a instância presente no discurso contendo eu." Essa instância é exclusiva por definição e só tem valor em sua exclusividade... Eu só pode ser identificado pela instância do discurso que o contém e apenas por ela". Você, por outro lado, é definido da seguinte maneira:


introduzindo a situação de "endereço", obtemos uma definição simétrica para você como o "indivíduo a quem a fala na instância presente do discurso contendo a instância linguística de você". Essas definições [acrescenta Benveniste) se referem a eu e você como uma categoria de linguagem e estão relacionadas a sua posição na linguagem.


Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002

Estruturalismo: Louis Althusser

Para adotar mais uma vez um tom mais crítico, a teorização de Althusser é na verdade um foco terrivelmente estreito, por se agarrar tanto ao cânone do pensamento marxista. Em conseqüência, embrar Althusser esteja diretamente preocupado com o conceito de ciência e embora afirme que Marx inaugurou a ciência da história, é quase impossível determinar com precisão o que significa ciência, fora do fato um tanto obscurecedor de que, ao contrário da ideologia, a ciência não tem um sujeito.Além disso, ainda que aspectos do texto de Althusser sobre ideologia contenham algumas das melhores coisas que ele escreveu, o elo real entre ideologia, reprodução e interpelação não é suficientemente explicado. Se a ideologia está sempre presente (sendo a relação imediata que as pessoas têm com o mundo), mas é, sob o modo de produção capitalista, a forma pela qual a exploração é mantida, qual é o elo entre ideologia em geral e a forma historicamente específica pela qual os indivíduos são constituídos como sujeitos no capitalismo? Subitamente vemos que, com toda a ênfase na descoberta científica de Marx a respeito do modo de produção - uma descoberta que supera a ideologia -, a própria natureza da ideologia como o imediatismo ilusório da relação entre o ser humano e o mundo é esquecida. O que parece ser necessário não é só uma ciência dos modos de produção, mas também uma ciência da natureza da ideologia. E, portanto, embora Althusser tenha algo importante a dizer acerca da ideologia em geral, isso entra em conflito com o que ele quer dizer com um filósofo marxista preocupado com a exploração. O que precisamente pode uma teoria marxista da ideologia nos dizer a respeito da exploração? Quase nada, se fôssemos seguir Althusser nesse ponto - muito embora a ideologia esteja de maneira inextricável ligada à reprodução do sistema. Gradualmente, começamos a perceber que talvez o melhor livro escrito por Althusser tenha sido sua autobiografia.


Lechte, John"50 Pensadores Contemporâneos Essenciais:do Estruturalismo à Pós-modernidade", tradução de Fábio Fernandes,Editora Difel.,2002